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UM ANÔNIMO RECONHECE DALCÍDIO JURANDIR NUM ÔNIBUS DO RIO

UM ANÔNIMO RECONHECE DALCÍDIO JURANDIR NUM ÔNIBUS DO RIO Sabemos que "Chove nos campos de Cachoeira" (1941) venceu o mais “rumoroso" (Álvaro Lins) prêmio literá rio de sua época - o "Vecchi-Dom Casmurro" (Rio, 1940), cuja importância já dava por si mesma grande fama ao vencedor. Isso aconteceu com o "Chove" e com seu autor, que virou celebridade no meio literário, a ponto de aparições suas serem comunicadas aos jornais por anônimos. Veja transcrição abaixo. E tão logo o romance chegou às livrarias, a "Editora Vecchi" patrocinou um concurso de crítica, cuja campanha publicitária ficou a cargo de seu parceiro de prêmio, o jornal "Dom Casmurro", de Brício de Abreu. Muitas críticas foram publicadas, entre elas, de conterrâneos e amigos de Dalcídio Jurandir, como Machado Coelho, Bruno de Menezes e Cléo Bernardo. Durante a quarentena, pretendo trazer aqui algumas dessas críticas. Por enquanto, segue o texto do anônimo que viu e ...

LI "PSSICA"

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“ Pssica ” (Boitempo Editorial, 2015), de  Edyr Augusto , menos de cem páginas, é um texto pesado. Grande. Dei um tempo após a leitura. Reações estéticas exigiram. Confusões cerebrais, emocionais. Tempo para respirar, digerir, ordenar o caos interno. Alguma catarse. Devorei o livro em poucas horas. Sem pausa. Mas dificilmente não se o devorará às pressas. O texto sincopado - a dispensar convenções gráficas, sobras, todo ritmo, tão rápido nas palavras e frases quanto duro, denso no seco retrato pintado, obriga. Olhos numa página, dedos em pinça a esfregar a próxima. A narrativa tem capítulos curtos, com o que me deu a impressão de se compor de contos quando comecei o segundo capítulo – outros personagens, outro ambiente. No primeiro, Belém; no segundo, Curralinho, Marajó; e supus que a unidade estaria apenas na forma textual e no teor noir das histórias. Mas os fios não demoram a se entrecruzar e, no ritmo sempre frenético, começar a revelar imensa rede de dores, crimes, vio...

POR QUE "CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA" SOBREVIVE AO TEMPO?

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(Publicado originalmente como prefácio à oitava edição de "Chove nos campos de Cachoeira", Pará.grafo Editora (2019). Por Edilson Pantoja I “Chove nos campos de Cachoeira” — “Chove,” deste ponto em diante — é o romance inaugural de Dalcídio Jurandir. Ele o escreveu entre os vinte e os trinta anos de idade. Um pensamento de juventude, como disse algumas vezes sobre o romance, após o qual escreveu outros dez ao longo de aproximadamente quarenta anos. Escreveu-os retratos tão pungentes da dura realidade humana, que darão a impressão de fatalismo, pessimismo, e, em alguns momentos, cruéis. Paradoxalmente, o fez com esperança. Dez desses romances, inclusive aquele primeiro, pensamento de juventude, a quem transformará no embrião de uma série, por ele denominada “Extremo Norte”, dedicou à vida do homem paraense: uma série “sobre a vida paraense em termos de fi cção”, repetiu outras vezes. São eles, na ordem sequencial, além do “Chove”: “Marajó” (1947), “Três casas ...

NÃO EXISTE UMA LITERATURA PARAENSE?!

Por Edilson Pantoja "A palavra distingue o homem entre os animais; a linguagem, as nações entre si - não se sabe de onde é um homem antes de ele ter falado." J.-J. Rousseau (Publicado originalmente em fevereiro de 2003) Enquanto pensava a respeito do texto "Literatura Paraense existe?", de autoria do professor Paulo Nunes, tive, repetidas vezes, a afirmação acima a borbulhar em minha reflexão. Resolvi torná-la epígrafe de minha argumentação. Quis ver aí um mote que talvez me permita pensar uma perspectiva diferente daquela enfocada por Nunes. O pequeno trecho, constante do "Ensaio sobre a origem das línguas" tem por tema, conforme o próprio título da obra enuncia, a linguagem - linguagem verbal, deixe-se frisado. E é oportuno que se observe a relação entre universal e particular aí referida. Aprecio no trecho a importância que dá ao lugar (topos) - ao elemento pátrio, portanto - como sendo essencial para a constituição da identidade,...

O BICHO MAU E A LETRA DA ÁGUA

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“De novo se mexeu, ora coleando com amplas sinuosidades oscilantes, ora escorregando reta sobre o ventre...” ( Guimarães Rosa – “Bicho Mau” ). Por Edilson Pantoja (Publicado anteriormente nas revistas virtuais Caliban e Mallarmargens, em 2017) I O recente livro da poeta L uciana Brandão Carreira ,  A Letra da Água,  como se pode imaginar a partir do título, é dedicado à água, elemento primordial de toda vida. De tudo que há, se dermos razão a Tales de Mileto, precursor da busca por significação lógica sobre o  cosmo , a ordem natural. Em Tales, o que quer que seja ou venha a ser, se apresenta como diferença e multiplicidade daquilo que, em essência, ou latência, para usar um termo familiar à autora, também psicanalista, permanece o mesmo. Trata-se de  Hydro , fundamento de tudo, cuja maleabilidade o faz apresentar-se ora líquido, ora sólido, ora gasoso, ora em respectivas zonas fronteiriças, estados que perfazem todas as dimensões do que é. Com...

APRENDER A OLHAR É APRENDER A MORRER: SOBRE FOTOGRAFIA, FILOSOFIA E POESIA

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Por Edilson Pantoja (Pulicado originalmente no site Musa Rara, em 2012) Chikaoka, Miguel. Hagakure Existir é errar. Não necessariamente no sentido de quem, a dispor previamente do que é certo, opta pelo errado. Certezas são ficções temporárias de quem é trânsito. De quem é abertura, de quem, sendo, abre-se necessariamente à temporalidade. Para o homem, único existente entre todos os que vivem, a errância é condição. Ek-sistir quer dizer: deslocar-se, pôr-se para fora, abrir-se rumo a seus possíveis. Pelo que se poderá entender, noutra luz, o dito popular segundo o qual “errar é humano”. A reflexão vem a propósito de “Para se ter de onde se ir”, exposição fotográfica de Miguel Chikaoka, fundador da Associação Fotoativa, referência em experimentação e educação, há quase trinta anos, para as gerações que, desde então, em Belém, e daqui para fronteiras mais distantes, transitam ou constituem a cena fotográfica. O título, sugerido pelo curador Mariano Klautau Filho, e prontam...