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Mostrando postagens de agosto, 2026

SOBRE OUTONO DE CARNE ESTRANHA

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“Outono de carne estranha”, romance vencedor do Prêmio SESC de Literatura, de 2023, de Airton Souza, retrata a lida dura e rústica no garimpo de Serra Pelada, no sudeste paraense, cuja efervescência se deu na primeira metade dos anos 1980, quando ditadores militares ainda governavam nosso país. Movidos pelo sonho do ouro, milhares de homens escavaram a montanha, à base de pás e picaretas, e até mesmo à unha, ao ponto de inverter a forma do cone. O que não pode a certeza de um tesouro? Mas o garimpo é mestre da ilusão. A montanha virou abismo, e a “cava”, como serpente a atrair presas, enrodilhou-se no preparo do bote. Para a maioria, a promessa do ouro, do bamburro, enriquecimento abrupto, revela-se blefe. O garimpo é o mestre-mor do blefe. No vocabulário do garimpeiro se diz brefo. Brefado é aquele que, tendo investido esperanças, recursos, por mais parcos que sejam, e forças do corpo, nada conseguiu, de modo que agora se encontra pior do que quando chegou.  Mas o movimento que le...

SOBRE O RÉPTIL MELANCÓLICO

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“... porque assim menos se assemelhará ao pai que tem, o senhor Maurício, ou com os tios que tem, seja o senhor Antônio, a quem muito mesmo se parece, seja ao senhor Carlos, com quem se parece um pouco”. Lemos o trecho acima no prólogo de “O réptil melancólico”(2021), romance vencedor do Prêmio Sesc de Literatura deste ano. Tratar-se-ia de um detalhe sem importância na fala do velho Malaquias ao receber Felipe na casa do Anfão, não fosse o velho alguém sobre o qual saberemos que “sabe de muitas coisas”, ainda que não se possa dizer que o quase centenário Malaquias seja um fofoqueiro. Ao contrário. Se, tal como ocorre a Felipe, Malaquias veio ao mundo para descobrir, compreender e contar, tal missão não se aplica necessariamente às intimidades daqueles a quem serve, mas como ponte capaz de ligá-las à compreensão do amplo mundo em que se inserem. Mundo de sentidos contrastantes, lacunares, catastróficos. Certamente se pode escolher no rico repertório narrativo de "O réptil melancóli...

BENONI ARAÚJO - UM CONTEMPORÂNEO

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Sobre o livro Sob a ira do mar   I “A vida apenas, sem mistificação”, diz o último verso de Os ombros suportam o mundo , de Drummond, publicado originalmente em 1940, no livro Sentimento do mundo . Começo por esta reminiscência algo “sinestésica” – uma, dentre outras -, a que Sob a ira do mar , segundo livro do poeta Benoni Araújo, me reporta. Evoco-a como modo de aproximação receptiva, levado, desde a obra de Benoni, por afetos, termos que utilizo aqui naquele sentido empregado por Gilles Deleuze quando se refere à Arte enquanto campo de produção de perceptos – complexo de sensações e afetos, enquanto, por exemplo, a Filosofia, diferentemente, de acordo com tal filósofo, produziria conceptos . É então com base nesse estado afetivo que direi um truísmo indesculpável ao afirmar que poesia é para ser lida, sentida – não, reportada conceitualmente, ainda que o meta-discurso, a crítica, tenham, sim, um papel fundamental, principalmente, no que diz respeito ao reconhecimento e divulgaç...