SOBRE O RÉPTIL MELANCÓLICO
“... porque assim menos se assemelhará ao pai que tem, o senhor Maurício, ou com os tios que tem, seja o senhor Antônio, a quem muito mesmo se parece, seja ao senhor Carlos, com quem se parece um pouco”.
Lemos o trecho acima no prólogo de “O réptil melancólico”(2021), romance vencedor do Prêmio Sesc de Literatura deste ano. Tratar-se-ia de um detalhe sem importância na fala do velho Malaquias ao receber Felipe na casa do Anfão, não fosse o velho alguém sobre o qual saberemos que “sabe de muitas coisas”, ainda que não se possa dizer que o quase centenário Malaquias seja um fofoqueiro. Ao contrário. Se, tal como ocorre a Felipe, Malaquias veio ao mundo para descobrir, compreender e contar, tal missão não se aplica necessariamente às intimidades daqueles a quem serve, mas como ponte capaz de ligá-las à compreensão do amplo mundo em que se inserem. Mundo de sentidos contrastantes, lacunares, catastróficos.
Certamente se pode escolher no rico repertório narrativo de "O réptil melancólico" trechos outros para epígrafe de um comentário despretensioso como é o caso presente. Mas o fato de o trecho escolhido se encontrar já no prólogo me parece significativo, ainda que só retroativamente se possa percebê-lo, após adentramos certos pórticos dos segredos da casa do Anfão. É quando percebemos a sutileza sob a qual se esconde elemento importante da trama e da condição de Felipe, personagem exilado de quase tudo que pode conceder a alguém o sentimento de identidade, de origem, de memória, de um determinado lugar no mundo, enfim, de um eu.
Embora significativo, entretanto, o trecho não condensa toda a complexa condição de Felipe, que está ligada, como dito, a algo mais amplo, uma questão espaço-temporal, política, e, assim, existencial, que nele e através dele ganha singularidade.
O leitor que porventura conheça os livros acadêmicos de Fábio Fonseca de Castro, "A cidade sebastiana" (2010) e "Entre o mito e a fronteira" (2011), notará que a ficção de "O réptil melancólico", assinado com o nome artístico Fábio Horácio-Castro, ecoa em muitos aspectos ideias ali presentes e a eles se conecta como atualização de um pensamento sobre a cidade de Belém, cidade de nome duvidoso, sua história, que é a história de seus sentidos, digamos assim, bem como da região ou província da qual em algum momento se fez capital.
Mas o romance basta-se a si mesmo, no sentido de que não é simples eco daquelas ideias, e dispensa completamente o conhecimento prévio daqueles livros. Talvez, para nos valermos de uma imagem, possamos dizer que esteja a jusante de tais ideias, para onde fluem como as águas calmas que seguem o leito estreito do rio/texto acadêmico, submetido que é a determinadas regras, até o agitado e aberto oceano da arte de “O réptil melancólico”, onde uma dinâmica completamente distinta em intensidade e volume, a dinâmica das ondas, as agita para configurar, digamos assim, outra experiência de “banho”. Nas páginas do romance as ondas são as formas narrativas sucessivamente experimentadas, quase desnorteantes, enquanto que do horizonte aberto vêm os fatores que as sopram e geram: a habilidade imaginativa do autor e o domínio técnico e erudito que a conduz e orienta, de modo que, não obstante a diversidade dessas formas, também elas expressões do imaginar, e quiçá, de um esforço para mostrar “as coisas mesmas”, nada sai do controle, seja do narrar, seja do narrado, mesmo quando o narrador introduz o que parecem enumerações.
E, sem dúvida, a meu ver, pelo menos, o que torna tudo isso possível e legítimo, a ponto de talvez lhe atribuir feições do chamado “realismo mágico”, é o recurso do réptil. É pelo artifício do réptil, hábil passeador, em seu atravessar espelhos, paredes, vidas, tempos e lugares, mas também formas narrativas, que consegue modular as diferentes ondas formais com que envolve o leitor e assim justificar as lacunas entre elas, reproduzindo, talvez, na experiência deste último as lacunas, lapsos e deslocamentos que constituem a experiência do melancólico Felipe, entre outros personagens, como Miguel, que flagramos já na infância a experimentar as lacunas da cidade como lacunas de um álbum de figurinhas. Do mesmo modo, é pelo recurso do réptil, duplo por excelência, que se torna possível uma espécie de paradoxo pelo qual seres lacunares sejam ao mesmo tempo postos num jogo de duplos, “bicéfalos”, como os próprios Felipe e Miguel, em quem somos tentados vislumbrar um alter ego do autor, que, aliás, se duplica com o nome e feito artístico, ou Sara e Asra.
Aliás, a experiência de exílio de Felipe e seu retorno a um mundo marcado pela colonização e pela catástrofe me faz pensá-lo também como um “duplo” de Isaías, personagem do romance “Maíra’, de Darcy Ribeiro, que, a seu modo, não deixa de ser tão exilado, deslocado e melancólico quanto Felipe. E se, não obstante, podemos frisar as diferentes experiências sociais de ambos - Felipe é fruto do mundo burguês, dos debates livrescos, acadêmico, enquanto Isaías, que retorna de Roma, procede de uma tribo indígena sobre cuja experiência avança, inexorável, o progresso - o desamparo de ambos está ligado ao mesmo processo que conduz a história, este "amontoado de catástrofes”, que nem Felipe, restaurador patrimonial, nem Isaías, que retorna com o fim (nada claro) de reaver - sem sucesso - seu lugar de tuxaua, chefe guerreiro da tribo, conseguirão deter. Resta a alegoria.
Edilson Pantoja
Kepos, 15 de dezembro de 2021.
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