SOBRE OUTONO DE CARNE ESTRANHA
“Outono de carne estranha”, romance vencedor do Prêmio SESC de Literatura, de 2023, de Airton Souza, retrata a lida dura e rústica no garimpo de Serra Pelada, no sudeste paraense, cuja efervescência se deu na primeira metade dos anos 1980, quando ditadores militares ainda governavam nosso país.
Movidos pelo sonho do ouro, milhares de homens escavaram a montanha, à base de pás e picaretas, e até mesmo à unha, ao ponto de inverter a forma do cone. O que não pode a certeza de um tesouro? Mas o garimpo é mestre da ilusão. A montanha virou abismo, e a “cava”, como serpente a atrair presas, enrodilhou-se no preparo do bote. Para a maioria, a promessa do ouro, do bamburro, enriquecimento abrupto, revela-se blefe. O garimpo é o mestre-mor do blefe. No vocabulário do garimpeiro se diz brefo. Brefado é aquele que, tendo investido esperanças, recursos, por mais parcos que sejam, e forças do corpo, nada conseguiu, de modo que agora se encontra pior do que quando chegou.
Mas o movimento que leva do sonho à frustração não marca só garimpeiros, e é neste sentido que o romance vai além da “cava”, seus paredões desmoronantes e escadas vertiginosas, as “adeus, mamãe” - nome significativo para exprimir o desamparo absoluto, e fala do existir, do humano enquanto tal. Ora, falar do humano é falar, fundamentalmente, dessa experiência de queda, onde as “adeus, mamãe” ganham ares de metáfora, e seus degraus, breves pontos de apoio e passagem em meio à vertigem geral, podem designar afetos como amor, esperança, saudade, fé, superstição, ilusão, enfim. É nesses degraus que nós, o fardo sobre os ombros como um saco de estopa e melechete (a terra enlameada do garimpo), tomamos impulso: o peito de nosso pé se contrai e nossos dedos se dobram como garras de pássaros. É interessante como, em diversos momentos, personagens repetem esse gesto condicionado, mesmo fora das escadas físicas.
Em Serra Pelada, como na vida, histórias se tecem. E entre tais tessituras, temos a relação homoafetiva, secreta e perigosa entre Zuza e Manel, a batina abandonada por Zacarias, o brado do autor contra a injustiça, a censura, o medo, a violência e o totalitarismo do Marechal, cujos olhos azuis dão conta de que, não obstante ser ele o representante da ditadura em Serra Pelada, sempre rodeado e protegido por seus bate-paus, como o senhor de escravos o era por seus capitães do mato, seu poder tem a idade do Brasil e a origem do colonizador. Em suas mãos, sangue secular.
Outono de carne estranha é um livro forte. Forte e rústico como o ferro que golpeia a dureza pedregosa da terra, que só a custos inestimáveis se deixa dominar, entregando quinhões do tesouro guardado nas entranhas. É também um livro necessário enquanto expressão de uma realidade amazônica atravessada por dores agudas, do homem, da terra e de incontáveis não humanos, expressão que uso aqui no sentido daquele perspectivismo constatado por Viveiros de Castro.
Virá da rusticidade do retratado a rusticidade que às vezes me incomodou em certas imagens e termos do retrato. Do mesmo modo, justificar-se-á o repetitivo recurso ao delírio, à Manoel de Barros, que assalta abruptamente a lógica narrativa mediante uma construção inusitada do narrador ou na fala e pensamento de personagens. E sabemos que o delírio, à Freud, é também um modo de lidar com a realidade. Meu estranhamento (pacificado, veja-se) quanto a tais pontos, entretanto, restrito a minha subjetividade, não ensombrece em nada o feito de “Outono de carne estranha”, que acaba de bamburrar com um dos mais importantes prêmios literários nacionais, reluzindo, para o país, merecidamente, o nome de Airton Souza, por cuja obra agradeço e por cujo feito parabenizo.
Edilson Pantoja
Kepos, 07 de novembro de 2024.
Comentários
Postar um comentário